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sábado, 7 novembro 2026
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Estratégia de Bolsonaro põe Estado laico em risco

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Redação PB Vale
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A estratégia de candidatos que dialogam com o eleitorado religioso como o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) assumiu textura mais escorregadiça, o que torna a defesa do Estado laico um desafio crescente.

É a constatação de Christina Vital, doutora em ciências sociais e docente na UFF (Universidade Federal Fluminense), segundo quem a agenda política nunca esteve tão permeada por valores religiosos.

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“Desde 2010, a gente só viu aumentarem os riscos à laicidade”, afirmou a pesquisadora, em entrevista à reportagem.

A estratégia adotada por candidatos, especialmente para o Executivo, que precisam dialogar com público expandido, é o que Vital chama de revelação e ocultação da confessionalização da política.

Consiste em ativar a agenda religiosa para os grupos em que ela é um capital eleitoral e amainá-la ao tratar com grupos de interesse. Nestes casos, pautas setorizadas são abordadas, em especial a da segurança pública.

Bolsonaro evidencia o jogo. Ele chegou a arriscar a estratégia puramente confessional inicialmente.

Banhou-se no rio Jordão com a bênção do Pastor Everaldo (PSC), em 2016, um gesto explícito ao eleitorado evangélico.

Não se converteu, contudo, nem religiosa nem politicamente. Define-se católico, mas sensível ao eleitorado que representa 30% do Brasil. É o que Vital chama de ADE, amigo de evangélicos. Ajuda-o o casamento com uma fiel da Igreja Batista.

Sem a identidade evangélica fincada, manteve prestígio entre o público avesso ao fervor de uma fé em particular. E para isso, como é notório, usa do passado militar para alavancar sua associação com a pauta da segurança.

O próprio Pastor Everaldo provou do fracasso que a estratégia puramente confessional até hoje resultou no Brasil. Sua candidatura à Presidência em 2014 não recebeu 1% dos votos.

“A anunciação religiosa traz muitos limites. Com a revelação e ocultação, é possível atingir um eleitorado mais amplo”, resumiu Vital.

Nesse cenário, as noções de laicidade estão sob ameaça, entende a pesquisadora.

“Essa confessionalização implícita esvaziou o argumento do ativismo pela laicidade do Estado. São candidatos que se apresentam como outros quaisquer, mas que também têm uma religião.”

Vital vê a laicidade perdendo espaço no Brasil, seja na concepção francesa, seja na americana. Na primeira, o espaço estatal não deve acolher qualquer símbolo religioso.

Na segunda, a religião pode ser representada na esfera pública, porque a liberdade de crença e de expressão estão garantidas. No entanto, a divisória é clara: a religião não norteia a política.

“No Brasil, a agenda religiosa afeta políticas públicas universais, em torno de argumentos inscritos em uma fé”, disse Vital. A Igreja Católica, por exemplo, fez lobby contra um material do Ministério da Saúde para reduzir a Aids, e correntes evangélicas militaram contra o programa Escola sem Homofobia, o kit gay.

Em outra frente, grupo de pesquisa da UFF acompanha o fortalecimento de associações de magistrados religiosos, os católicos, os evangélicos e os espíritas. Eles ocupam postos destacados no Judiciário e no Ministério Público, segundo os docentes.

No livro “Religião e Política”, de Vital, Paulo Victor Leite Lopes e Janayna Lui, Pastor Everaldo já revelava que o objetivo era “assumir a cabeça”, em referência à Presidência da República, para nomear ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) pertencentes ao segmento.

O agora ex-juiz Wilson Witzel (PSC), que venceu a disputa pelo governo do Rio, explicitou uma combinação que resultou no sucesso da estratégia da revelação e ocultação da confessionalização da política em 2018.

Segundo Christina Vital, é ao associar a amizade com o eleitorado evangélico a uma identidade laboral que candidatos obtiveram respostas positivas das urnas.

Witzel, por exemplo, colocou a magistratura como cartão de visitas, em momento em que o Judiciário, associado à Lava Jato, goza de credibilidade entre parte expressiva da população. No Legislativo, multiplicaram-se os candidatos juízes, policiais, professores, policiais, notou Vital.

Não à toa, o presidenciável derrotado Fernando Haddad (PT), no segundo turno, reforçou sua apresentação como professor e passou a mencionar Deus e religião. Com informações da Folhapress.

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